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Síndrome do intestino irritável

O cólon irritável é uma afecção que ocasiona quadros variáveis de constipação, diarreia e dor abdominal. Nesta nota são apresentadas algumas chaves para interpretar esta enfermidade cada vez mais comum entre a população

O cólon irritável é uma enfermidade muito mais frequente do que a maioria das pessoas pode imaginar. Trata-se de um transtorno funcional crônico do intestino, frequentemente ligado ao estresse emocional.


Possivelmente existam muitas pessoas que desconhecem a enfermidade, ainda que possam, neste preciso momento, estar afetadas por esta doença crônica sem jamais ter dado importância aos seus sintomas ou ter consultado algum médico.
A síndrome do intestino irritável é o problema gastrointestinal mais frequente nos países desenvolvidos e, pressupõe-se seja a causa de cerca de 25% das consultas de atendimento básico.

Aspectos gerais do cólon irritável

O cólon irritável recebeu, ao longo da história, diferentes denominações que refletem o escasso conhecimento que se tinha sobre essa enfermidade, até não muitos anos atrás. A mesma foi conhecida como “intestino irritável”, “cólon espástico”, “disfunção intestinal” e “enfermidade funcional intestinal”, entre outros nomes. Se bem que o nome “cólon irritável” seja o mais empregado na literatura espanhola, não reflete corretamente a origem deste problema, que pode afetar a totalidade do intestino (tanto delgado como grosso).

Basicamente, esta enfermidade é caracterizada por uma alteração da motilidade normal do intestino. Esta motilidade, denominada peristalse, é a contração harmônica e sequencial dos anéis musculares que se encontram na parede intestinal. Tal função do tubo digestivo tem o propósito de dar propulsão de forma coordenada aos alimentos contidos em seu interior.

Os sujeitos afetados por cólon irritável apresentam uma alteração da peristalse de forma inconstante, com períodos de motilidade normal que podem ser de duração muito variável (dias a anos). Durante os períodos sintomáticos, o intestino parece funcionar de forma descontrolada e totalmente anárquica, dando lugar ao surgimento de espasmos intestinais, alteração da propulsão e, inclusive, aceleração do trânsito intestinal. Durante estes períodos, o intestino parece “ter enlouquecido” e, como consequência, os sintomas são imprevisíveis.

As manifestações clínicas da enfermidade

A síndrome do intestino irritável aparece sob uma multiplicidade de sintomas básicos: constipação, diarreia, dor abdominal e flatulência, os quais podem se apresentar sozinhos ou em combinação.

Um grande percentual da população teve, seguramente, algum destes sintomas em determinado momento de suas vidas, sobretudo em situações em que há estresse. A proximidade de um exame, uma viagem de avião iminente, situações estressantes do ambiente de trabalho e da vida cotidiana em geral, entre outras condições de tensão emocional, podem dar lugar ao surgimento de diarreia, flatulência em excesso, ruídos intestinais, entre outros sintomas, manifestações todas que refletem a presença de uma alteração da peristalse normal intestinal.

Sabe-se que qualquer indivíduo saudável pode apresentar ocasionalmente estes sintomas sem sofrer de cólon irritável, assim como qualquer pessoa pode alguma vez ter acidez sem que, necessariamente, tenha uma úlcera. O problema se origina quando tais fenômenos se repetem no tempo e interferem como desenvolvimento normal do indivíduo nos diferentes âmbitos da vida cotidiana. Se bem que os fenômenos previamente mencionados sejam característicos desta síndrome, de acordo com as alterações motoras predominantes, o indivíduo pode sofrer diferentes sintomas. A diarreia é produto de uma aceleração da velocidade do trânsito intestinal; mas a constipação, pelo contrario, é consequência do mecanismo oposto.

Um mesmo sujeito pode apresentar alternadamente diarreia e constipação em diferentes momentos da enfermidade, e isto representa algo que pode se mostrar muito orientador ao médico. Também pode ocorrer que o intestino se contraia de forma espasmódica e em diferentes zonas de seu trajeto, sem gerar uma peristalse eficiente. O resultado disto é o surgimento de dor abdominal intermitente que, em certos casos, pode ser de uma intensidade tal que seja extremamente incômoda para quem a sofra. Tais alterações podem causar também um aumento na produção e retenção anômala de flatulências abdominais, mesmo que o intestino grosso produza normalmente certa quantidade de gás (pela fermentação dos alimentos causada pelas bactérias que formam a flora intestinal normal), as alterações motoras intestinais fazem com que tal quantidade possa aumentar. Estes gases distendem o intestino além da conta e podem provocar inchaço abdominal intenso e dor.

Diarreia, constipação, dor abdominal e flatulências podem se apresentar em um mesmo sujeito, no mesmo ou em diferentes momentos da enfermidade.

Fatores desencadeantes da síndrome do intestino irritável

O estresse é, provavelmente, o principal desencadeador dos sintomas do cólon irritável. Na vida atual, cheia de ocupações e na qual tudo parece desenvolver-se em um ritmo mais que acelerado, as pessoas se veem frequentemente submetidas a uma grande carga emocional. Esta sobrecarga nervosa pode ser controlada de duas formas: uma é sua “exteriorização” mediante gritos, por exemplo; forma que seria mal-vista e não socialmente aceita. A outra forma (muito mais frequente de se observar) é “interiorizar” a carga de estresse, o que no cotidiano seria mais conhecido como “engolir o nervosismo”.

Tipicamente, os sujeitos afetados por cólon irritável estão submetidos a uma boa dose de estresse e não exteriorizam, geralmente, seus conflitos. Consideram-se indivíduos “tranquilos”. Frequentemente, trata-se de pessoas jovens, de boa educação e nível social; se bem que nos últimos tempos, tem-se observado que a síndrome pode afetar amplamente as classes sociais economicamente mais vulneráveis. É possível que este “nervosismo acumulado” de forma crônica, de uma maneira ou de outra, tenha sua repercussão em alguma zona corpórea. Poderá se manifestar como um ataque asmático, uma dor torácica, uma úlcera gástrica ou (por que não?) um cólon irritável.

Chegando ao diagnóstico da enfermidade

É provável que, quando o indivíduo compareça à primeira consulta, o médico, após um breve interrogatório e levando em conta os fatores mencionados anteriormente, possa ter a presunção diagnóstica de que o indivíduo sofre de cólon irritável. No entanto, este é um diagnóstico que até o presente somente se realiza por exclusão, devendo-se fazer os estudos pertinentes para descartar outros transtornos potencialmente mais graves. Se o médico tem uma forte suspeita diagnóstica de que exista a enfermidade, o que deve fazer em primeira instância é tranquilizar o paciente, informando-o que, caso se confirme o diagnóstico, a enfermidade é benigna e não está relacionada a outras de maior gravidade, como o tão temido câncer de cólon. Isto, sobretudo, se os sujeitos forem mais jovens do que 30 anos, já que o câncer de cólon geralmente aparece em indivíduos mais velhos do que essa idade.

É muito possível que, diante de um indivíduo jovem que reúne as características do transtorno, o médico o tranquilize e lhe diga que é factível que seus sintomas sejam consequência de um cólon irritável.

Um dos primeiros aspectos que o médico deve avaliar diante a presunção diagnóstica da enfermidade é o estado psíquico do indivíduo. Como se disse anteriormente, o estresse é um fator fundamental no surgimento agudo desta enfermidade. É indiscutível então que, com o controle do estado nervoso, o indivíduo poderia atingir um dos objetivos e, provavelmente, o mais importante para superar sua enfermidade.

É comum que o sujeito comente um estado de estresse no momento do surgimento dos sintomas. Ainda que tal estado tenda a desaparecer com o tempo, é certo que todas as pessoas se encontram submetidas a um bombardeio de emoções ao longo de sua vida, e a questão é como o indivíduo pode conduzir isto.

É importante levar em conta que esta enfermidade representa cerca de 50% dos casos que motivam a consulta ao especialista, pelo que a maioria dos médicos tem em mente esta enfermidade no momento em que os sujeitos os consultam, por sofrer de algum desses sintomas.

Como se trata o cólon irritável?

O diagnóstico do cólon irritável, com frequência, não se mostra muito complicado, mas o que em certas ocasiões consegue preocupar o médico, é encontrar a forma mais adequada de tratar o quadro.

Os transtornos funcionais do tipo do cólon irritável possuem uma intensa carga emocional agregada, e esta pode se transformar no maior problema que o médico terá de enfrentar, ao tratar a enfermidade.

O primeiro passo, para o tratamento se baseia na dieta, que deverá conter fibras, que podem ser incorporadas mediante o consumo de frutas e verduras frescas, batata doce, cenoura e pão de cereais. Da mesma forma, a farinha de cereais pode ser incorporada aos alimentos e atuar de forma similar a um medicamento laxativo, sendo absolutamente inócua ao organismo e melhorando a catarse. Outras medidas gerais consistem em aumentar a ingestão de líquidos e realizar atividade física, começando com algumas caminhadas diárias de poucos quarteirões, ou desenvolver algum tipo de atividade desportiva aeróbica. Se a diarreia for o quadro predominante, pode ser indicada uma dieta adstringente. A ingestão de arroz, polenta, queijos desengordurados, maçã, pão branco torrado e gelatina dietética, entre outros, provavelmente melhore o quadro. A dor abdominal pode ser controlada com antiespasmódicos e a flatulência pode melhorar ao se controlar a dieta, tirando os refrigerantes ou os alimentos que podem fermentar no cólon e gerar flatulência (como os cítricos, os legumes, a couve-flor, o repolho e as verduras de folha). Da mesma maneira, deve-se evitar o hábito tabagista.

Estas medidas nem sempre dão resultado, e o médico deverá equilibrar tanto as higiênico-dietéticas (caminhadas, líquidos, regulação alimentar) como as medicamentosas. Certamente, é praticamente impossível conseguir que o sujeito mude sua maneira de ser e adquira tranquilidade por si mesmo. Não obstante, o esforço de tentar isto é importante para que o tratamento seja eficaz.

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